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À PROCURA DOS MOTIVOS
( do livro “Oficina de nomes”, 1995)
Onde as palavras que freqüentavam livres em seus signos
a tessitura mágica do poema?
Imobilizadas pelo acaso,
eco em grota árida no desgaste da repetição,
sem sentido no reino frígido dos valores absolutos?
Onde achar, inéditas, as palavras incompetentes para o silêncio,
rasteiras em demasia para a louvação do eterno,
recalcitrantes para a voz das ordens e réplicas
já vãs no diálogo sem saliva das parabólicas?
Onde as palavras viscosas,
as de precisa sabedoria nas situações de desencanto?
As que curavam sem remédio,
as dos pregões mascateiros que transitavam a periferia?
As que rumorejavam festins entre bichos que arquitetam
o chão ensolarado,
as que prediziam obviedades nos invólucros das surpresas?
As que se desculpavam em humilhações reincidentes
quando o olhar era só o perdão inconcebível?
Onde as palavras abortadas pela senilidade do concretismo,
as palavras presas na garganta,
as suspensas no branco da memória,
as palavras desonradas no compromisso da linguagem,
as que provocavam o incêndio do abraço
(ternura – coisa possível, ainda?)
Onde as palavras que saciavam a esperança,
as que desinibiam frutos proibidos,
as que apascentavam os conflitos da náusea?
Onde as palavras de sedução no discurso amoroso?
As que transigiam para manter a história?
As que especulavam o futuro e explicavam o imponderável?
Onde as palavras que faziam rir com seu jogo da verdade,
as que desmascaravam as circunstâncias sociais,
as que se negavam para sobreviver
às ambivalências do reflexo do espelho?
Onde as palavras a fundo perdido, as palavras-chave,
as palavras sem importância que o vento
amontoava no entulho dos verbetes?
Onde as palavras marginalizadas, as que rompiam o hímen
dos mistérios, as que no auto da devassa da persona
discerniam a ambigüidade das homônimas?
Onde as palavras que se desmanchavam em pranto feliz,
as que salgaram as cicatrizes dos remorsos,
as que justificavam a poesia ser plenamente nada?
É possível – ainda – uma palavra que não seja o homem?
Mas que homem dignifica ainda e louva em exemplo
a condição de dialogar respostas?
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